TISS: Troca ou transferência?

Josier Marques Vilar*

Fevereiro/2008

Vai longe o tempo em que os conhecimentos da medicina eram transferidos através da intuição e do conhecimento formal que cada profissional acumulava para si ao longo de sua existência.

Com o avanço dos séculos e a chegada da era moderna, vieram a tecnologia, a medicina de ponta, os equipamentos e os fármacos quase milagrosos. A expectativa de vida se ampliou imensamente, quase todas as doenças passaram a ser controláveis, os médicos ganharam consultórios modernos, a comunicação pela internet tornou o mundo plano, os hospitais viraram grandes centros de incorporação tecnológica e os pacientes em muito se beneficiaram com este fantástico mundo novo.

O problema é que vivemos uma sociedade de excessos. Consumimos tudo de forma avassaladora e incontrolável: comida, bebida, riquezas naturais, bens duráveis e descartáveis, serviços de saúde. Estamos diante de uma cultura hospitalocêntrica, dentro de uma sociedade completamente medicalizada.

Como fazer então para equilibrar essa modernidade da investigação diagnóstica e terapêutica incorporada ao arsenal médico das últimas décadas, evitando-se o desperdício que nos empobrece?

A resposta parece complexa, mas pode ser resumida em uma palavra-chave: a informação. E não me refiro apenas à informação pura e simples, mas à informação compartilhada. Talvez esta seja a chave: compartilhar para sobreviver.

Acredito que esta tenha sido a visão da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) quando idealizou o TISS. O programa, Troca de Informações em Saúde Suplementar, é um dos grandes trunfos que temos em mãos para superarmos a crise que nos abate. É uma grande arma contra a desconfiança e a favor da construção de um sistema de saúde interligado, confiável, onde o histórico dos atendimentos seja visualizado por todos, possibilitando inclusive comparar quais foram os melhores resultados de tratamento e cura.

Os hospitais, clínicas e casas de saúde do município do Rio de Janeiro apoiaram esta iniciativa desde sempre. Em particular o SINDHRIO, que desde a primeira hora manifestou seu integral apoio ao projeto. Mesmo sem qualquer incentivo financeiro e com seus custos cada vez mais sufocados pelos preços controlados pelas operadoras de planos de saúde, nossas instituições investiram pesadamente na implantação do sistema, principalmente em treinamento de pessoal, na certeza de que este programa levaria a um bem comum, que é a TROCA de informações integral e confiável entre os players do setor.

No entanto, todo este esforço tem sido prejudicado pela ausência total de troca da informação. Na prática, o que tem ocorrido é a simples transferência dos prestadores de serviços para os planos de saúde, sem nenhum tipo de contrapartida. Incluindo aí uma análise crítica do que está sendo enviado, principalmente no que diz respeito a informações econômicas, extremamente importantes para nossa saúde financeira. Continuamos sem saber se as faturas que enviamos aos planos serão pagas, quando serão pagas e quanto será pago. As operadoras de planos de saúde não estão cumprindo a determinação do COPISS, de informar detalhadamente aos prestadores toda a análise das faturas enviadas. Na prática, o TISS só está sendo cumprido pelos prestadores de serviços. Em tese, a implantação da transferência eletrônica da informação deveria agilizar o pagamento das guias - que agora são enviadas em tempo real pela internet.

Infelizmente, muitos planos têm usado do subterfúgio da tecnologia para despistar as glosas, e sob as mais diversas alegações, incluindo aí a de preenchimento incorreto das guias, continuam a não pagar os serviços já prestados por seus credenciados.

Além dos pagamentos em dia, os prestadores de serviços vêm atuando em busca incessante da qualidade. Temos de ultrapassar os estágio administrativo do TISS, e alcançarmos o patamar da qualidade do atendimento. O TISS nos proporciona este futuro, porque carrega em seu conceito a capacidade de criar uma verdadeira rede de conectividade, na qual as informações dos pacientes estarão interligadas. Além disso, possibilitará a medição de indicadores de qualidade e eficiência nos tratamentos e procedimentos, norteando as políticas de prevenção e acompanhamento dos pacientes, facilitando a todos que atuam na saúde a encontrarem melhores caminhos para seus pacientes.

Por isso a ANS, patrocinadora da implantação do TISS, precisa resgatar o conceito original de TROCA das informações na saúde, e impedir que alguns planos de saúde façam o uso indevido desta moderna e contemporânea ferramenta de gestão. Desconfiança e falta de transparência não combinam em nada com as boas práticas que tanto sonhamos para o nosso setor.

* Josier Marques Vilar é Presidente do SINDHRIO.








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