13 / Dezembro / 2018

4 desafios da Saúde Pública na garantia da segurança do paciente

Segurança do Paciente

Mudança de mentalidade é primeiro passo para uma Saúde eficiente, eficaz e sustentável, que entregue a qualidade necessária para o principal interessado nos serviços

 

O Instituto de Medicina (IOM) norte-americano define a segurança do paciente como um dos seis atributos da qualidade do cuidado, ao lado de efetividade, centralidade no indivíduo, oportunidade, eficiência e equidade. Cada vez mais a proteção ao cidadão nos serviços de Saúde ganha destaque em organizações de todo o mundo, sejam elas públicas ou privadas. No entanto, ainda há inúmeros desafios que precisam ser enfrentados para garanti-la integralmente. 

Um exemplo do tamanho dessas dificuldades para a gestão da Saúde Pública são as Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (Iras), tipo de evento adverso que mais mata em todo o mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aponta que, no ano de 2016, 2.212 instituições notificaram a ocorrência de Iras no Brasil. A meta da Anvisa é que, até o fim de 2020, 80% de todos os hospitais notifiquem esses números. 

Desafios 

Fernando Arruda, coordenador adjunto do curso de Medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) explica que o principal caminho para oferecer mais segurança na assistência ao cidadão prestada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) passa pela estruturação de um núcleo especializado em cada instituição. A partir dele se desenvolve uma cadeia de educação e mudança de mentalidade que deve alcançar todos os colaboradores. 

O especialista cita os quatro principais desafios das redes de atenção à Saúde do SUS na garantia da segurança do cidadão: 

  • Baixo investimento: a Saúde Pública lida rotineiramente com verbas reduzidas e deve ter inteligência para administrá-las. A adoção de protocolos clínicos é apontada pelo especialista como um caminho para promover mais segurança no atendimento ao cidadão, além de reduzir desperdícios e garantir que os recursos aplicados revertam em melhorias para quem precisa dos serviços. Um sistema de gestão da Saúde Pública também auxilia na promoção da segurança à assistência, já que organiza os dados na mesma plataforma, facilitando a implementação de ações de acompanhamento de processos que são fundamentais para identificar e solucionar gargalos. 
  • Ausência de processos definidos: não adianta nada adotar protocolos e investir em tecnologia se os processos da organização não estão mapeados. É preciso um trabalho prévio de definição de cada processo, de que forma ele ocorre, quem são os responsáveis e quais são os parâmetros que serão utilizados para medir a eficiência de cada um deles. Desta forma, caso ocorra um erro, será mais fácil localizá-lo e trabalhar estratégias para evitar que outros aconteçam. 
  • Cultura punitiva: segundo o professor, profissionais que erram são punidos de forma severa quando deveriam receber orientações educativas. O setor é complexo e um erro pode causar a morte de um cidadão, porém, para reduzir essas intercorrências é crucial treinar e capacitar as equipes de forma contínua. 
  • Mudança de mentalidade: uma assistência segura depende de pessoas engajadas. Logo, é preciso criar uma nova mentalidade para lidar com o tema. Para Arruda, esse mindset começa na formação acadêmica. "As universidades precisam incorporar o conceito desde o início do curso. Além disso, os profissionais já atuando na área devem entender que o assunto é fundamental para a qualidade do diagnóstico e tratamento." 

Ações nacionais 

A segurança do paciente é fundamental para a melhoria do SUS. Além de garantir a qualidade do cidadão que utiliza o serviço público, ela também promove redução de gastos com sequelas advindas de eventos adversos ou mesmo com complicações decorrentes de uma infecção. 

Para tentar solucionar os principais desafios na ampliação desse conceito, o Ministério da Saúde criou em 2013 o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), que visa contribuir para a qualificação do cuidado em Saúde Pública. 

Para Arruda, a iniciativa é boa, mas ainda há muito a avançar. "O tema começou a ser discutido na década de 1980, na Europa e nos Estados Unidos. O objetivo inicial era aferir o impacto dos processos assistenciais na perda de pacientes, não apenas aqueles ocasionados por erros, mas também por procedimentos que não deram certo ou que causaram infecções. No Brasil o conceito é abordado de forma mais profunda há cerca de cinco anos, apenas. Mas as intercorrências causadas por eventos adversos que poderiam ser evitados são a segunda causa de morte no País.” 

Os seis processos obrigatórios instituídos pelo PNSP mostram como o Brasil está atrasado na questão: cirurgias seguras, identificação do paciente, prática de higiene de mão, prática de prevenção de queda, segurança na prescrição e uso de medicamentos e úlcera por pressão. Ou seja, o caminho ainda é longo para entregar a qualidade e segurança da assistência que o cidadão necessita.

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