13 / Novembro / 2018

4 estratégias de prevenção em Saúde Pública para casos de surtos de doenças erradicadas

estratégias de gestão da saúde pública

Dificuldade de comunicação e notícias falsas são causas de queda na cobertura vacinal; tecnologia e protocolos clínicos auxiliam gestão da Saúde Pública a lidar com o desafio

Uma das principais formas de prevenção de doenças adotada pelas redes de atenção à Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) é a vacinação. As campanhas de imunização em massa se mostraram uma eficiente ação de vigilância epidemiológica. No entanto, nos últimos anos a cobertura vacinal tem caído, acendendo um importante alerta para os gestores públicos, que precisam lidar com possíveis surtos de doenças consideradas erradicadas. 

Um exemplo é o sarampo. Até setembro de 2018, o Ministério da Saúde contabilizou oito óbitos provocados pela doença, além de um aumento de 133% no número de diagnósticos confirmados em todo o território nacional. A poliomielite, que não é registrada no País desde 1990, também corre o risco de voltar, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), já que houve pelo menos 12 casos da doença no mundo em 2017. 

Uma das causas do avanço dessas patologias é a baixa cobertura vacinal, que vem caindo ano após ano, conforme aponta o Ministério da Saúde. Associada à diminuição do número de crianças vacinadas somando-se à expansão das viagens aéreas nos últimos anos, faz com que as doenças migrem de um país para o outro com muito mais facilidade. "A diminuição do preço das passagens e aumento do poder aquisitivo da população brasileira tornaram as viagens mais frequentes. Conforme menos pessoas são vacinadas, mais casos podem ser importados para o país", associa Fernando Arruda, coordenador adjunto do curso de medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). 

Conforme o especialista, a atenção à Saúde organizada em redes não pode controlar o número de viagens da população, porém, deve investigar cuidadosamente os motivos que levaram à baixa na procura pelas vacinas, já que as campanhas dos anos 1980 e 1990 foram amplamente aceitas - fato que possibilitou a erradicação das doenças infectocontagiosas mesmo com surtos em países vizinhos. Arruda listou duas possíveis causas para a queda nas taxas de imunização: o baixo investimento na divulgação das campanhas e o compartilhamento de notícias falsas.  “Mensagens com mentiras ou meias verdades sobre vacinas, as chamadas fake news da Saúde, também são responsáveis pela diminuição da adesão às campanhas", completa. Para fugir delas, a população precisa estar bem informada pelos órgãos oficiais, além de ser incentivada a buscar fontes confiáveis sobre o tema.

O maior desafio das redes de atenção à Saúde no SUS é o engajamento populacional para que as crianças voltem a ser vacinadas. Arruda ressalta que as campanhas nunca diminuíram. “Pelo contrário, a quantidade e a eficiência das vacinas aumentou nos últimos anos.”

 

Estratégias

O especialista cita quatro estratégias que as redes de atenção à Saúde devem colocar em prática para reverter esse quadro. Conheça: 

1- Adotar protocolos clínicos: no caso do tratamento das doenças infectocontagiosas também deve-se ter protocolos clínicos bem definidos e integrados ao PEC, o que facilita o armazenamento e processamento dos dados. Os protocolos clínicos são baseados nas melhores práticas de medicina, ou seja, se bem empregados promovem redução de custos ao mesmo tempo em que melhoram a assistência.

 

2- Ampliar as ferramentas de comunicação com os cidadãos: combater as fake news da Saúde é uma forma de diminuir o impacto das notícias falsas na cobertura vacinal. Deve-se de traçar um plano estratégico de divulgação que inclua diversos meios de comunicação e aborde os principais benefícios de se vacinar contra as doenças. Para montar esse cronograma de ações, os dados coletados por sistemas de gestão, Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) e também por meio de mídias sociais são de grande importância, já que permitem ao gestor público mapear onde há menor índice de vacinação e maior ocorrência de casos da doença para focar ali as ações, por exemplo.

 

3- Adotar e integrar sistemas de gestão da Saúde Pública e prontuário eletrônico do SUS: os dados reunidos por essas ferramentas permitem mapear, em tempo real, onde há mais casos das doenças e direcionar os esforços das políticas públicas para essas localidades. É importante lembrar, porém, que o PEC não possui todas as funcionalidades do Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP), que também pode ser adotado nas redes de atenção à Saúde do SUS.

 

4- Investir em Sala de Situação Eletrônica: Ao permitir o uso de ferramentas como Business Intelligence (BI) e analytics, com dados obtidos por meio do PEP, amplia-se o alcance das estratégias. É possível organizar, hierarquizar e cruzar dados, determinando a localização das populações com maior risco de contrair as doenças. Dessa forma, direcionam-se as atividades das Equipes de Saúde da Família (ESFs) para áreas de maior incidência, ação associada à estratégia da Vigilância Epidemiológica, por exemplo. Essas ferramentas também fortalecem as redes de atenção à Saúde ao organizar dados de Saúde não-estruturados e trabalhá-los com inteligência para prever cenários e organizar demandas. "A digitalização dos dados permite encontrar os focos de sarampo, por exemplo, e monitorar essas pessoas, saber por onde andaram e outras informações úteis no combate aos surtos", complementa. 

Para o professor, um dos pontos mais importantes é a integração dos sistemas, tanto internos quanto externos. “As diversas instituições responsáveis pela assistência, tanto na Saúde Pública quanto na privada, devem compartilhar dados sobre os casos registrados. É a única forma de o Ministério da Saúde cruzar as informações obtidas com as da campanha vacinal e definir quais são as políticas públicas prioritárias.” 

Os desafios são grandes, contudo, a organização da atenção à Saúde em redes e o apoio da transformação digital diminuem a disseminação de informações falsas ao mesmo tempo em que permitem um trabalho de inteligência no monitoramento dos casos, avaliando onde e como agir para impedir que os surtos se alastrem.

 

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