04 / Agosto / 2020

4 resultados do uso de teleorientação para a gestão da Saúde Pública

Teleorientação

Ganho de tempo e qualidade na assistência são dois deles; especialista indica uso para acompanhamento da evolução do diagnóstico, otimizando a gestão do cuidado integral ao paciente.

A telemedicina consiste, em resumo, na aplicação da tecnologia digital para fins de assistência, pesquisa, prevenção de doenças e lesões e promoção de saúde a distância. No contexto da gestão de Saúde Pública, é um caminho para encurtar as distâncias em um país com 8,5 milhões de km2 de extensão e diversas disparidades de acesso aos serviços.

Entre seus variados braços está a teleorientação, que segundo o médico Chao Lung Wen, professor associado e chefe da disciplina de telemedicina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), trata-se de um "complemento à consulta médica" (remota ou não) e tem como finalidade explicar ou conduzir adequadamente a situação do cidadão, considerando que, na maioria das vezes, o médico já tem um diagnóstico fechado sobre ele.

A modalidade foi uma das que ganhou destaque nos últimos meses no Brasil, impulsionada pela pandemia da Covid-19. Em março de 2020, o Ministério da Saúde decretou uma portaria para regulamentar o seu uso, bem como o da teleconsulta e demais formatos de telemedicina, no contexto do coronavírus. Essa portaria substituiu a última resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre o tema, que datava de 2002. Houve, em 2019, uma tentativa de atualizar a regulamentação da telemedicina no Brasil que, no entanto, enfrentou polêmica e não foi adiante devido, principalmente, à possibilidade de aplicação entre médico e paciente. O formato era permitido apenas com um profissional de Saúde em cada ponta.

"Na teoria, já havia essa iniciativa de 2002 do CFM, que era desatualizada do ponto de vista tecnológico. O que tivemos adicionalmente, em decorrência da pandemia, foram quatro documentos relacionados à telemedicina, sendo o mais importante deles a Lei 13.989/20", esclarece Wen a respeito do texto que, na prática, autorizou as modalidades entre médico e paciente ao menos enquanto durar a pandemia, abrindo, assim, o caminho para a gestão da Saúde Pública utilizar a teleorientação.

Wen destaca que a modalidade garante informações fundamentais ao indivíduo ao mesmo tempo em que possibilita o acompanhamento da evolução de seu quadro clínico, fundamental para a resolução de um problema de saúde. "Essa orientação pode ser feita por videochamada. Um exemplo ocorre quando, para garantir uma inalação mais eficiente, o profissional de Saúde mostra como adaptar a máscara e fazer a inspiração. Mas também é possível realizá-la via telefone, em casos mais simples. É preciso bom senso para saber que tipo de orientação oferecer e se o meio utilizado é suficiente para gerar qualidade na assistência", alerta Wen.

O especialista ressalta que apesar de parecer simples, a teleorientação gera grandes impactos sociais quando aplicada pela gestão da Saúde Pública. Veja, a seguir, alguns dos principais resultados da prática:

1- Otimização da terapêutica:

De acordo com Wen, em torno de 50% dos insucessos terapêuticos ocorre porque o cidadão ou seu acompanhante não entenderam uma explicação do médico sobre como tomar um medicamento ou qualquer outro tipo de terapêutica. Sendo assim, a teleorientação auxilia a prover corretamente as informações necessárias para o tratamento, aumentando o sucesso do cuidado.

O formato pode, inclusive, ser combinado a aplicativos de Saúde que permitem, por exemplo, gerar alertas para o horário de tomar um medicamento ou, ainda, transmitem informações sobre hábitos saudáveis de alimentação e exercícios físicos.

2- Ganho de tempo:

A teleorientação ajuda a diminuir as filas de espera e a necessidade de deslocamento para unidades de Saúde, ponto crucial diante de uma pandemia que requer isolamento. "Às vezes, o paciente precisa apenas ouvir do médico se ele deve prosseguir com um remédio ou conduta após o resultado de exames, o que pode ser rapidamente resolvido na teleorientação", exemplifica o especialista.

Aqui o fundamental é garantir que as informações necessárias para o médico prestar a assistência estejam todas no Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP), seja o do SUS ou a versão privada. Dessa forma, mesmo a distância é possível prover uma orientação qualificada, de acordo com o quadro específico do cidadão.

3- Humanização do atendimento:

A teleorientação também auxilia a gestão da Saúde Pública a garantir a proximidade necessária entre médico e cidadão mesmo quando eles não estão localizados no mesmo espaço geográfico. "É uma forma importante de humanizar a assistência em tempos em que as pessoas estão fragilizadas", destaca Wen.

Além disso, possibilita que o cidadão tenha acesso a orientações de especialistas sem a necessidade, por exemplo, de se deslocar para a cidade de referência onde a gestão da Saúde Pública disponibiliza o serviço.

4- Garantia de cuidado contínuo:

Durante a pandemia, uma das principais complicações é o medo. Portadores de doenças crônicas, por exemplo, podem deixar de ir a atendimentos simplesmente porque não se sentem seguros de se deslocar até a unidade de Saúde.

A teleorientação é uma forma de a gestão de Saúde Pública garantir o acompanhamento desses casos. "Muitos diabéticos ou hipertensos deixaram de ir às consultas por estar no grupo de risco da Covid-19, o que aumenta o risco de complicações. Portanto, é fundamental pensar em formas de acompanhar esses pacientes crônicos, e a teleorientação é um caminho", afirma Wen, que destaca que o mesmo pode se aplicar a cidadãos idosos, que necessitam de um acompanhamento mais próximo.

Para estruturar, é preciso continuar

Muito se discute sobre a forma como a telemedicina foi aprovada no contexto do coronavírus e sobre como não se pode retroceder no pós-pandemia. Wen ressalta que, apesar da conquista, o Brasil ainda está muito atrasado nas discussões sobre a Saúde Digital como um todo.

Ele ainda levanta ressalvas sobre o que chama de "telemedicina banalizada". "Vemos hoje diversas iniciativas comerciais duvidosas, como teleconsultas e teleorientações anunciadas em portais na internet por valores irrisórios", alerta.

Especialmente na gestão da Saúde Pública, o especialista defende a implementação do que ele chama de "telemedicina de logística", ou seja, não apenas implantar a tecnologia para possibilitar a ampliação do acesso, mas também permitir que o cuidado seja integrado e atenda, de fato, as necessidades de cada localidade. "A telemedicina de logística permite planejar segundo as regiões e seus pontos de carência, e [a partir daí] usar o recurso digital para complementá-los", argumenta. "Trata-se de prover os serviços que aquela população precisa, entendendo as carências e provendo a saúde por meios eletrônicos interativos", ressalta.

[report] As três fases da gestão inovadora de Saúde

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