09 / Agosto / 2016

ABCDE do trauma: tudo o que você precisa saber

abcde do trauma

Em 1976, ao sofrer um acidente com sua família, o cirurgião ortopédico Jim Styner pôde perceber quão inadequados eram os cuidados em relação aos primeiros socorros de vítimas de traumas. Depois dessa experiência, o médico desenvolveu o protocolo ABCDE do trauma, que passou a ser empregado em diversas regiões do mundo a partir de 1978. Também nesse ano, o primeiro curso sobre o tema foi ministrado.

A importância do método desenvolvido por Jim Styner não demorou a ser reconhecida pelas autoridades médicas, uma vez que só com esses cuidados é possível realmente estabilizar o paciente, deixando-o mais seguro para o transporte e para quaisquer outras intervenções que se façam necessárias. O protocolo tem como principal objetivo reduzir índices de mortalidade e morbidade em vítimas de qualquer tipo de trauma. Quer saber como o método funciona? Então acompanhe agora mesmo nosso post:

Como funciona o método?

Tomando como base os atendimentos na rede pública, podemos dizer que as causas externas representam uma boa parcela do número de internações. Estão incluídos nesse número os usuários do serviço que sofreram acidentes de trânsito, afogamentos ou foram vítimas de quedas e agressões físicas, entre outras possibilidades. Todas essas causas externas são consideradas traumas. Por isso, durante o primeiro contato com a vítima, aplica-se o ABCDE a fim de garantir sua estabilização, sendo que qualquer lesão maior será monitorada com a devida atenção até a chegada a um hospital ou centro de atendimento apropriado.

Quais são suas etapas?

Como o próprio nome já sugere, o método se divide em 5 etapas: A, B, C, D e E. Cada letra representa uma etapa cuja inicial se refere a um termo em inglês. Que tal conhecer uma a uma?

A de airway (ou via aérea)

Vias aéreas e controle da coluna cervical. Nessa primeira fase do atendimento, o médico deve checar se o paciente está com as vias aéreas desobstruídas. É importante verificar se não há corpos estranhos impedindo a respiração, fraturas de face ou qualquer lesão na coluna cervical. Todo o processo deve ser tátil, verificando sinais de edemas ou sangramentos e observando se a vítima não emite qualquer som durante a respiração, tosse ou apresenta alguma agitação. Garantida a permeabilização, o colar cervical deve ser colocado.

B de breathing (ou respiração)

Respiração e ventilação. Depois de garantir a permeabilidade das vias respiratórias, é preciso aferir se o cidadão está, de fato, respirando bem. Nesse ponto, é necessário observar os movimentos do tórax, fazer auscultas a fim de eliminar qualquer lesão torácica e, se necessário, utilizar métodos de ventilação mecânica para reestabelecer a função.

C de circulation (ou circulação)

Circulação com controle de hemorragia. Após os primeiros procedimentos, é preciso impedir que a vítima entre em quadros como a hipovolemia (diminuição anormal do volume do sangue de um indivíduo), que podem trazer como consequência o choque hemorrágico. Assim, apalpar, verificar o dorso e identificar de onde surgiu a hemorragia é o primeiro passo para sua contenção. Impedir que o cidadão continue perdendo sangue durante o atendimento pode ser decisivo para que o óbito não aconteça. Nessa etapa também são aferidos o nível de consciência, a coloração da pele, a frequência e a amplitude do pulso, a perfusão periférica, a pressão arterial e do pulso, ainda notando se há sudorese.

D de disability ou (ou incapacidade)

Exame neurológico sumário. Uma avaliação primária do nível de consciência da vítima deve ser determinada no momento do primeiro atendimento para que, depois, seja encaminhada e classificada pela Escala de Glasgow. A primeira verificação deve ser feita pelo método AVDI: Alerta, resposta a estímulo Verbal, resposta a estímulo Doloroso ou inconsciente aos estímulos. Depois da primeira classificação, o paciente deve passar por um novo teste ao chegar na unidade de atendimento.

E de exposure (ou exposição)

Exposição com controle da hipotermia. Para identificar fraturas e hemorragias, a vítima deve ser despida. Para facilitar o trabalho e impedir novos traumas, corta-se a roupa. Nesse procedimento, é comum que a temperatura do corpo baixe, deixando os cidadãos mais suscetíveis à hipotermia. Com isso, outros problemas podem surgir. Assim, antes da remoção da vítima para o atendimento, é preciso garantir que sua temperatura esteja estável. Por isso, é preciso ter mantas térmicas sempre à mão.

Como é no Brasil?

Com o primeiro curso tendo sido ministrado em 1978, a partir de 1980 diversos países (como o Canadá e outros da América Latina) já receberam profissionais totalmente capacitados para disseminar os conhecimentos entre os médicos interessados em adotar o método. No Brasil, porém, o curso só foi disponibilizado em 1989, chegando a todo o país só em 1992. Há atualmente núcleos de formação espalhados pelo território nacional. Segundo estimativa divulgada pela instituição responsável pelos cursos, credenciada pelo Colégio Americano de Cirurgiões, já foram treinados mais de 30 mil médicos no Brasil. Todos eles são, portanto, devidamente capacitados para adequar o método aos demais protocolos clínicos iniciados em sua instituição.

Leigos não são autorizados a mexer nas vítimas até a chegada de uma equipe médica de urgência. Profissionais realmente capacitados para atender vítimas de acidente de trânsito ou qualquer outro tipo de trauma são médicos, socorristas ou bombeiros, que tiveram todo o treinamento necessário, possuem certificação e têm em mãos os aparatos certos para tentar reverter alguma situação, estabilizando a vítima. Isso sem contar que têm experiência em salvamentos e primeiros socorros, claro.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou em seu último relatório (intitulado Situação global sobre segurança rodoviária 2015), o Brasil aparece na 56ª posição em um ranking de 180 países que mais sofrem com a mortalidade no trânsito. Nas Américas, o Brasil está atrás apenas da República Dominicana e de Belize. No mundo todo, aproximadamente 1,25 milhão de pessoas morrem vítimas de acidente de trânsito. Proporcionalmente, 23% são motociclistas, 22% são pedestres e 4% são ciclistas. No Brasil, em 10 anos, a taxa de mortalidade nas vias foi de 18,7 para 23,4 a cada 100 mil habitantes, taxa próxima à registrada em países africanos (média de 26,6 vítimas para cada 100 mil habitantes).

Governos de algumas capitais já desenvolveram programas de conscientização tentando reduzir as mortes e o número de pacientes que tratam sequelas de acidentes na rede pública. Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin criou, em 2015, o Movimento paulista de segurança no trânsito, conselho constituído por 9 secretarias para desenvolver políticas que promovam a redução de vítimas do trânsito no estado pela metade até 2020.

Em 2013, entendendo a necessidade de suprir essa demanda crescente, o Ministério da Saúde criou a Linha de cuidado ao trauma na rede de atenção às urgências e emergências do Sistema Único de Saúde (SUS). Com isso, o sistema investiu na melhora ao acesso e atendimento de vítimas de causas externas, estabelecendo regras para a habilitação de centros especializados em trauma que visam organizar a rede hospitalar, padronizar e agilizar o atendimento a vítimas de violências e acidentes em geral e evitando óbitos, complicações e sequelas graves.

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