19 / Novembro / 2019

Dois lados: os limites da Inteligência Artificial na Saúde Digital

Saúde digital; inteligência artificial; inovação na saúde, transformação digital na saúde

Especialistas apontam situações em que a IA pode auxiliar a atuação de médicos e discorrem sobre os limites dessa tecnologia no atendimento ao paciente

 

No filme "Star Trek", médicos usam um equipamento curioso: o Tricorder, que realiza o escaneamento da palma da mão com o intuito de identificar condições clínicas e realizar diagnósticos de doenças, bem como medir sinais vitais rapidamente. Já no longa "Elysium", as Med-Bays representam o ápice do que seria a inovação na Saúde e na tecnologia médica nos dias atuais:  cápsulas realizam o escaneamento do corpo humano em busca de anomalias e realizam a cura na mesma proporção de tempo. 

Esses exemplos soam bastante utópicos, mas apresentam um elo com a realidade da Saúde digital, um dos frutos da transformação digital da Saúde: a integração entre humanos e máquinas equipadas com Inteligência Artificial, capazes de trazer diferentes diagnósticos e identificar as mais variadas doenças. Mas qual o limite do aceitável na atuação para a IA na rotina médica? 

Conheça abaixo as opiniões de dois especialistas sobre o tema neste especial “Dois lados: os limites da Inteligência Artificial na Saúde Digital": 

"Não se pode acreditar que IA é uma mágica, que resolve todos os problemas, porque não resolve"

Cezar Taurion, head de transformação digital na Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data 

  • Apenas máquinas: Primeiro de tudo, a Inteligência Artificial não pode e nem deve ser superestimada. No nível que a temos hoje, apesar de composta por algoritmos sofisticados, é pura matemática. Não temos a inteligência no sentido humano. Sendo assim, a máquina, por meio de reconhecimento de padrões, identifica com razoável precisão um câncer de mama, uma pneumonia, por exemplo. Mas, para a IA, [a doença] é um conjunto de pixels que ela foi treinada para encontrar e me responder com 'aqui tem um câncer', porque o rótulo definido para aquele padrão é esse. Ela não sabe, de fato, o que é um câncer." 
  • Diagnóstico: "O trabalho do médico não é apenas analisar imagens. A máquina pode ajudar no processo de fazer diagnóstico e o médico tem mais tempo para ser médico, para oferecer um tratamento humano. A máquina também auxilia outro desafio que é o da reciclagem, da atualização. O médico se forma hoje e em 5 anos está obsoleto. Existem mais de 30 milhões de publicações médicas e a máquina pode ler todos os artigos publicados, resumir e informar áreas de interesse por meio de algoritmo de recomendação. Encontrou um artigo interessante? Envia o link e mantém o médico atualizado constantemente." 
  • Limites: "Temos de entender que a máquina é auxiliar e não substituta do médico e ela não deve ser encarada como ameaça. Quem a encara como ameaça é por desconhecimento. A IA potencializa o médico, transformando a profissão. Não é dela a palavra final. Há situações em que a máquina vai ajudar, mas ela não entende o que está fazendo. Nossa tendência é de 'humanizarmos' a máquina, mas ela é puramente um modelo matemático. Ela não tem empatia, ela pode até simular, falar palavras carinhosas, mas ela não gosta de você. Ela se comporta como se fosse inteligente, mas ela não é. A IA responde a padrões de comportamento para os quais foi treinada para responder. Não se pode acreditar que IA é uma mágica, que resolve todos os problemas, porque não resolve." 

 

"Temos de progredir mais quanto aos limites éticos"

Renato Sabbatini, biomédico com mais de 40 anos de experiência e professor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública 

  • Prescrição: "Se imaginarmos que, no futuro, a AI tenha um desempenho e grau de acerto semelhante ou superior a de um médico especialista, é possível que a IA possa prescrever no lugar do médico. Porém, temos a questão da responsabilidade profissional que, até o momento, é preciso que seja de exclusividade de um médico capacitado e licenciado para assinar a prescrição. É um problema, por enquanto, insolúvel. A quem atribuir a culpa por um erro de decisão pelo algoritmo, por exemplo?" 
  • Trabalho conjunto: "No cenário tipicamente VUCA (volatilidade, incerteza, complexidade, ambiguidade), nunca será possível existir uma situação em que as decisões tomadas por uma máquina com IA possam ser inquestionáveis. A medida em que a máquina atinge ou supera níveis humanos de tratamento desses quatro domínios, a probabilidade de erro aumenta. Assim, a aceitação por parte do médico é o passo final e fundamental, e acredito que o papel da IA será sempre o de auxiliar a tomada de decisão." 
  • Limites: "É difícil atualmente fixar limites, devido ao progresso tecnológico rápido e aparentemente sem vislumbrarmos ainda até onde chegará (se é que tem limites). Nessa situação, temos de progredir mais quanto aos limites éticos, dentro do princípio máximo de não causar mal (ao paciente e ao profissional)."
[report] Profissional, tecnologia e gestão: as transformações necessárias rumo à Saúde Digital

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