28 / Julho / 2020

Engajamento na Saúde Digital e interoperabilidade: duas metas, dois desafios

03 / JUNHO / 2020Engajamento na Saúde Digital e interoperabilidade: duas metas, dois desafios

O cuidado integral do indivíduo ganha impulso com novas tecnologias. No entanto, é necessário estímulo à interoperabilidade de sistemas para garantir máximo proveito de serviços

 

Uma das prioridades definidas pela Agenda de Desenvolvimento Sustentável para 2030 da Organização Mundial da Saúde (OMS) é o desenvolvimento de procedimentos que promovam bem-estar, saúde física e mental de indivíduos, com objetivo de estender a expectativa de vida mundial. Ainda segundo a própria OMS, o avanço da Saúde Digital, em especial a mHealth, desempenha papel de destaque no alcance desse patamar.

A ampliação do uso de novas tecnologias, como relógios inteligentes e outros dispositivos vestíveis, bem como o desenvolvimento de aplicações e sistemas voltados ao cuidado da saúde contribuem para o alcance de uma cobertura universal e de qualidade. Indivíduos, por sua vez, demonstram interesse crescente no uso de inovações em Saúde: um levantamento feito pela IDC em 2019, por exemplo, aponta que o número de wearables vendidos no mundo cresceu 55,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. Dos cerca de 50 milhões de aparelhos comercializados, 63% eram smartwatches e 34% de encaixe na orelha, e o principal uso dos dispositivos era para saúde e bem-estar.

Para promover o engajamento de pacientes e, dessa forma, fazer com que a tecnologia alcance patamares cada vez mais elevados no cuidado com a saúde, é preciso, em paralelo, promover a interoperabilidade dos sistemas. Esta é, inclusive, uma das quatro tendências da transformação digital na Saúde apontadas pelo relatório "2020 global health care outlook", realizado pela Deloitte.

Como o engajamento de indivíduos com novas tecnologias e a promoção da interoperabilidade estão caminhando no Brasil? Ambos são considerados tendências da Saúde Digital, mas também desafios. Para responder essas questões, entrevistamos dois especialistas da MV: Daennye Bezerra e Tiago Calado, ambos gerentes técnicos de produto.

Leia na íntegra o resultado desse bate-papo:

Qual o papel da tecnologia no engajamento de pacientes? Como ela pode auxiliar na Saúde?

Daennye Bezerra: Atualmente muitos médicos não têm a certeza de que o paciente está cumprindo com as recomendações de tratamento. Imagine, por exemplo, que um indivíduo precisa fazer uma dieta por questões de saúde. Sem o seu adequado comprometimento, o quadro pode evoluir para uma doença crônica. Mas se há tecnologia envolvida, esse indivíduo pode acessar o plano de cuidado ao alcance de um clique, além de tirar dúvidas e entrar facilmente em contato com o médico, mesmo a distância. Dessa forma, o engajamento é facilitado e o tratamento pode ser, de fato, cumprido.

Tiago Calado: O uso da tecnologia no contexto da Saúde Digital é um movimento natural impulsionado não apenas porque é melhor para o paciente, mas também porque há uma questão de custo. Existe todo um contexto de estruturação de atendimento baseado em um modelo de remuneração por procedimento, de quanto mais procedimentos um especialista realizar, maior o lucro. Com o passar do tempo, os custos hospitalares aumentaram, especialmente considerando o envelhecimento da população e de doenças crônicas, e esse modelo fica insustentável. A adoção da tecnologia em benefício do engajamento do paciente ajuda a inverter essa lógica: ter mais cuidado com a saúde evita que o paciente busque o hospital, o que, além de ser melhor para ele, evita gastos para a organização. Hoje, vemos muitos incentivos para proporcionar engajamento do paciente no seu autocuidado, implementando a experiência do indivíduo e, consequentemente, reduzindo custos [com a Saúde].

A crescente demanda por uma alimentação mais saudável e um modo de vida com mais qualidade influencia no engajamento de pacientes com relação ao uso de aplicações e serviços com foco em saúde?

Daennye Bezerra: Existem alguns estudos que dizem que, no futuro, nove a cada dez pessoas vão desenvolver câncer por inúmeros fatores, como alimentação, sedentarismo e hábitos de vida pouco saudáveis em geral. Mas, ao mesmo tempo, há uma mudança de mindset na população, que está mais consciente sobre a própria saúde. Hoje, muitos indivíduos buscam não somente uma alimentação mais saudável, mas também mais qualidade de vida. Então, se uma pessoa tem engajamento com médicos, com equipamentos, com aparatos tecnológicos, seu interesse no uso de aplicativos e serviços de saúde pode aumentar significativamente porque ela entende a importância dessas ferramentas para sua qualidade de vida.

Sabemos que a interoperabilidade facilita esse acompanhamento integral do paciente, já que disponibiliza acesso a todas as informações de saúde armazenadas nos mais diversos sistemas e tecnologias, dentro e fora da organização. Em que patamar de adoção o Brasil se encontra atualmente?

Tiago Calado: A Saúde Digital já oferece tecnologias suficientes para promover a interoperabilidade. Já existem padrões de normatização bem estabelecidos por organizações

internacionais, assim como soluções de software e hardware para atendê-los. Com dispositivos vestíveis, por exemplo, os dados são descarregados facilmente no smartphone e toda informação de saúde pode ser rapidamente compartilhada com instituições por meio de sistemas baseados em padrões, da marcação de consultas ao monitoramento do tratamento do paciente, além de integração com Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP).

A tecnologia existe, então, mas ainda não é amplamente adotada, certo? O que falta para avançarmos em termos de interoperabilidade de sistemas e aplicações?

Daennye Bezerra: Todas as soluções de Saúde Digital [dispositivos, aplicativos] são maravilhosas, mas se não estão interligadas, não tem a eficácia e a eficiência necessárias para ambos: tratamento e engajamento. Nesse ponto entra um desafio cultural e político: muitas organizações são resistentes com a interoperabilidade externa porque temem o compartilhamento de seus dados. Já houve diversas iniciativas para implementar o prontuário único, mas, por mudanças estratégicas no governo,  projetos são descontinuados. Precisamos estimular o ecossistema de Saúde como um todo a adotar essa cultura [de compartilhamento de informações e dados].

Tiago Calado: Há também a questão do custo de desenvolvimento e implantação, além da questão da privacidade de dados. Esse é um cenário bastante delicado. Existem diversas iniciativas governamentais nesse sentido atualmente, mas é preciso algum incentivo para que o processo comece, de fato, a caminhar, a exemplo do que houve nos Estados Unidos com o programa Meaningful Use em 2009 e, mais recentemente, em 2017 no Uruguai, com a Historia Clinica Electrónica Nacional.

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