31 / Outubro / 2019

Gestão da Saúde Pública: 5 estratégias para gerir demanda por especialidades

SUS; Sistema Único de Saúde,atenção primária

A procura por atendimento especializado é um dos principais desafios que gestores do setor público enfrentam 

 

A demanda por atendimento com especialistas como cardiologistas, neurologistas, ginecologistas, psicólogos, entre outros, é uma crescente há algum tempo e se tornou uma questão crônica para a gestão da Saúde Pública. "Indicadores mostram que a fila de espera para atendimento com especialistas chega a 3 anos", comenta Thiago Uchôa, gerente comercial de produto da MV. 

A demanda por atendimentos menos complexos também não é diferente desse quadro: cerca de 45% dos pacientes afirmam estar aguardando há mais de seis meses por uma consulta, exame, ou cirurgia. Para 29% dos entrevistados, a demora ultrapassava os 12 meses, aponta uma pesquisa realizada pelo DataFolha, encomendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

Um dos motivos para a ascensão de requisições no Sistema Único de Saúde (SUS) foi o aumento no desemprego, que chegou a atingir mais de 12 milhões de brasileiros no final de 2018. Sem emprego, a tendência é que mais e mais pessoas abandonem seus planos de Saúde e passem a se consultar pelo SUS e, em consequência, a demora para conseguir um atendimento se prolonga. 

A Atenção Primária à Saúde, nesse sentido, tem o papel de ser a porta de entrada para o paciente no SUS, servindo como o filtro necessário não apenas para diagnosticar pacientes em seus primeiros sinais de anormalidades, como também para encaminhar para especialistas quando necessário. No entanto, isso não ocorre atualmente. 

De acordo com Gonzalo Vecina, médico e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), há alguns quadros de saúde como hipertensão, diabetes, ansiedade, micoses, problemas gastrointestinais, dores articulares, entre outras ocorrências que impactam frequentemente a população. Apesar de cada uma delas necessitar de um especialista para o tratamento, há outras maneiras de tratá-las. "Há um conjunto de doenças que possui uma fase de resolução mais simples, que pode ser endereçada por um clínico geral, e outras em fase mais complexa - essa segunda, sim, se beneficiaria de um especialista", explica. 

Mas a ineficiência em processos também contribui para o agravamento desse gargalo - não apenas em termos físicos, como também financeiros: nos próximos 12 anos, o SUS poderia economizar R$ 115 bilhões se conseguisse trazer mais eficiência para seus processos, de acordo com relatório do Banco Mundial. 

Estratégias para diminuir o gargalo da especialização

O atendimento da Saúde Pública poderia ser desafogado com treinamentos e novos protocolos, na opinião de Vecina. Há, entretanto, outros pontos que gestores podem abordar nesse processo: 

-       Capacitação: "Temos de capacitar médicos que estão fazendo a Atenção Primária, ajudá-los na identificação do conjunto de doenças mais simples e tratáveis, de forma que o paciente não precise ir no especialista", aponta Vecina, ressaltando que a grande maioria dos atendimentos não necessitam de tomografias, ressonâncias, ou outros procedimentos dispendiosos. "Estima-se que 80% das demandas de assistência à saúde podem ser adequadamente resolvidas na Atenção Primária.

-       Protocolos de atendimento: "Basicamente, o protocolo é conhecer bem um determinado quadro clínico, saber como diagnosticá-lo, como diferenciá-lo (como não confundir com quadro semelhante), como tratar, e também com relação ao prognóstico, evolução do tratamento", explica Vecina. Esses protocolos, de acordo com o médico, devem ser trazidos também para situações em que há quadros associados com a área da saúde mental, por exemplo, que necessitam de acompanhamento. "Não há uma receita pronta, mas é preciso usar um conjunto de instrumentos para conseguir melhorar a condição clínica do paciente." 

Uchôa sugere também estabelecer medidas para prioridades, garantindo que pacientes com determinadas características que colocam sua saúde em risco em grau mais elevado que outros recebam o tratamento antecipadamente. 

-       Sistemas de gestão: a tecnologia também pode auxiliar gestores a distribuir o trabalho. "Se um paciente foi diagnosticado com sarampo, por exemplo, a pergunta que deve ser feita é: 'o que devo fazer como profissional [da Saúde]?'. O sistema, por sua vez, traz o protocolo em tela e o clínico já sabe o que fazer", explica. E isso serve tanto para uma situação de diagnóstico quanto para um cenário de encaminhamento para especialidades.

Além disso, a tecnologia auxilia a organizar filas, classificando o nível de urgência de um atendimento, notificando via internet ou SMS quando há vaga para o paciente, quando ele pode realizar a consulta que, por sua vez, poderá ser agendada online. 

-       Prontuário Eletrônico: a adoção do PEP, na visão de Uchôa, também é ferramenta de suma importância para dar continuidade ao atendimento. "O prontuário é uma ferramenta estratégica que mostra o histórico de tudo o que foi feito durante o atendimento ao cidadão", aponta. "Ao entrar no consultório, o especialista consegue obter em pouco tempo a ‘fotografia’ do quadro clínico daquele paciente.

-          Contratualização: a ideia por trás desse processo é estabelecer uma ponte formal entre gestor municipal/estadual do SUS e representante legal de um hospital prestador de serviço privado ou filantrópico, com objetivo de traçar metas quantitativas e qualitativas de atenção à saúde e de gestão hospitalar. Dessa forma, garante-se que a capacidade ociosa do hospital possa ser aproveitada pelo setor público em prol do paciente. Uchôa cita como exemplo as Santa Casas, que determinam que seu atendimento seja 60% voltado para o SUS. "Nesse sentido, o principal cliente de locais com Santa Casa é o munícipe".

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