15 / Abril / 2020

Gestão hospitalar: como usar a tecnologia na coordenação do cuidado e autocuidado

Coordenação do cuidado

Instituições e especialistas devem aproveitar o engajamento dos pacientes para potencializar os resultados da assistência, incentivando a adoção de hábitos de vida mais saudáveis

 

A gestão hospitalar enfrenta diariamente inúmeros desafios na garantia do cuidado ao paciente, dentro e fora das dependências da instituição. Com indivíduos que mantêm uma preocupação crescente sobre a qualidade de vida - deles e da família -, surge uma nova dinâmica na qual pacientes demandam dos serviços ferramentas para apoiá-los nessa questão. 

Os wearable devices, ou dispositivos vestíveis, ganham, assim, um papel relevante no contexto da Saúde Digital. Com eles o cuidado é compartilhado com o paciente, empoderado pela tecnologia e o acesso à informação. A gestão do hospital ganha uma fonte de dados preciosos, mas que precisa ser trabalhada de forma a entregar, de fato, esse resultado. 

Unir esforços para promover o melhor atendimento ao paciente se torna imperativo nesse cenário. Mas como fazer essa orquestração, considerando necessidades e preferências do indivíduo, além de fornecer continuidade nessa interação? O nome disso é coordenação do cuidado. O termo consiste, resumidamente, no estabelecimento de diretrizes para promover a conexão entre todos os pontos da cadeia da Saúde, de modo a chegar ao principal elo: o paciente, que é recebido com atendimento holístico, englobando não apenas suas necessidades, mas também preferências de forma integrada. 

O que temos atualmente, no entanto, é um descompasso, como aponta Leandro Miranda, Chief Medical Informatics Officer (CMIO) do Hospital 9 de Julho. "Hoje, o paciente nasce, é atendido no hospital, vai para o ambulatório, para a pediatria. Ele vai envelhecendo, pode ter algum problema nesse meio tempo que o leva a procurar o sistema de Saúde. E, assim, essas informações ficam perdidas, espalhadas. Se o paciente não guarda esses dados, eles desaparecem com o tempo. Como recupero isso?", questiona o especialista. "Vacinas, por exemplo. Quais você já tomou? É uma pergunta simples, mas que poucos sabem responder", argumenta, complementando que é para endereçar essa fragmentação que a gestão hospitalar pode recorrer à tecnologia. 

"A coordenação do cuidado parte da ideia de encontrar formas de reter essas informações com o paciente. Assim, não será preciso repetir procedimentos, questionamentos. Ter a informação com o paciente também é uma forma de empoderá-lo", destaca o especialista. 

O primeiro ponto que deve ser endereçado para alcançar esse nível de assistência, na opinião de Miranda, tem relação com o Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP). "A ferramenta precisa usar padrões internacionais de comunicação. Hoje, é comum ter uma comunicação mais end to end, então, é preciso começar a pensar nas integrações", afirma. Nesse contexto, não se exclui a criação de software e serviços proprietários, por exemplo, mas se incentiva a padronização para que os sistemas possam conversar com serviços e aplicações de terceiros, garantindo a fluidez necessária à assistência. 

A promoção da interoperabilidade, na visão do especialista, entra como principal aliada nesse sentido. "Atualmente, cada hospital, mesmo utilizando software e sistemas de uma mesma marca, faz a configuração de formas diferentes. É preciso existir um padrão mínimo". Assim, a gestão hospitalar consegue interagir com outras instituições, como operadoras e centros de medicina diagnóstica, e compartilhar dados de interesse de forma simplificada, o que consequentemente diminui inconformidades. Nessa toada, também é possível extrair e cruzar as informações que são obtidas pelos dispositivos vestíveis. 

Para Miranda, a questão da interoperabilidade é mais profunda e pode ser resolvida com estímulos governamentais. "O governo ainda não apoiou ações de âmbito nacional, mas elas serão necessárias", aponta, dando como exemplo iniciativas do Instituto HL7 Brasil, uma organização voluntária sem fins lucrativos que é composta por desenvolvedores, vendedores, consultores, organismos governamentais e outros, que trabalham com o intuito de desenvolver padrões de protocolos para a saúde e normas de uso. 

Na prática, para que a coordenação do cuidado seja integrada, é fundamental que a administração hospitalar promova, também, o engajamento de equipes multidisciplinares distintas, independentemente do nível assistencial. Miranda comenta que há práticas de mercado que promovem o engajamento com incentivo financeiro, mas, na opinião dele, essa não é a maneira mais efetiva. "Devemos criar visualizações mais dinâmicas, práticas e benefícios claros", aponta. 

Nesse sentido, criar uma maneira, por exemplo, de expor informações relevantes de cuidado com o paciente pode ser um caminho eficiente de tornar o trabalho palpável. "Imagine os benefícios que a equipe pode ter se tiver acesso à informação, com visualização de dados de forma facilitada", aponta, dando como exemplo um profissional da Saúde que entende que a escolha de um determinado medicamento pode reduzir consideravelmente a pressão de um paciente, por exemplo, vendo consciência do valor no auxílio ao paciente. 

Miranda lembra que o uso da tecnologia permite à gestão em Saúde monitorar e qualificar melhor, trazendo uma inteligência preditiva à assistência. Uma vez consciente do impacto no cuidado, o engajamento tende a aumentar. "[A tecnologia] cria jornadas de cuidados, com gatilhos para tratar um quadro antes da complicação, entregando, assim, a saúde que os indivíduos demandam cada vez mais”, destaca o especialista.

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