12 / Setembro / 2019

Gestão hospitalar: saiba como e por que implementar modelos baseados em valor

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Informação sobre os pacientes e capacidade de uso analítico de dados são fundamentais para se preparar internamente, mas é preciso ainda otimizar as relações com as fontes pagadoras

 

Muito se fala sobre a necessidade de oferecer valor em Saúde. Mais que hotelaria, que por muito tempo foi considerado o fator principal da satisfação do paciente pela gestão hospitalar, a definição clássica do conceito é o resultado alcançado na otimização da assistência dividido pelos recursos gastos com a entrega daquilo que realmente importa ao paciente, ou seja, melhores desfechos, evitando-se desperdícios e considerando-se todo o ciclo de cuidado. Embora a definição possa guiar inicialmente a reflexão sobre o tema, ele é bem mais complexo. 

Alcançar o valor na Saúde depende de uma mudança cultural que envolve todos os players do setor e também o próprio paciente. Exige alterações no relacionamento entre hospitais e operadoras, novos modelos de remuneração, amadurecimento da gestão e investimento em tecnologia, desde que ela seja utilizada como meio para ganho de eficiência e melhoria na qualidade da assistência. Em um ecossistema que entrega valor, o paciente é o centro do negócio, mas não o único beneficiado. Hospitais, operadoras e demais agentes do cuidado sentem os reflexos da transparência nas relações e do compartilhamento de riscos, já que, no modelo, o desfecho é responsabilidade de todos os envolvidos. 

Francisco Neri, CMIO do Grupo Santa Joana, reforça que  valor na Saúde envolve não somente pacientes e a gestão hospitalar, mas todos os players do setor, unidos em busca de um objetivo comum. “O modelo implica não apenas em melhorar o cuidado, mas em aprimorar a sustentabilidade do sistema a longo prazo. Envolve também um objetivo compartilhado entre pacientes, pagadores e fornecedores”, destaca o especialista. 

Para Neri, o modelo de remuneração por volume de atendimento, conhecido como fee for service, levou à superutilização de recursos e à realização de procedimentos desnecessários, sem, no entanto, entregar o principal valor para o paciente, que é mantê-lo saudável. Passou-se, então, a falar em inviabilidade econômica do sistema e necessidade de redução de gastos. Mas o CMIO ressalta que a maneira mais indicada de se conter custos é melhorar a qualidade da assistência - e, portanto, a adoção de novas estratégias baseadas em valor, apoiadas por dados gerados pelo Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP), sistemas de gestão hospitalar e outras tecnologias, é inevitável. 

O especialista destaca cinco passos fundamentais para que a gestão hospitalar implemente projetos de Saúde baseada em valor: 

1- Conheça a instituição e os pacientes

Em um modelo com foco em valor, é fundamental ser capaz de prever os resultados de tratamento, os riscos e custos relacionados para produzi-los. Ou seja, informação é crucial. Nesse cenário, o PEP, por exemplo, permite acesso aos dados clínicos do paciente em tempo real - e se estiver em um sistema de computação em nuvem, de qualquer dispositivo com acesso à internet. 

O prontuário eletrônico pode, ainda, comunicar-se com outras soluções, como o Sistema de Arquivamento e Comunicação de Imagens (Picture Archiving and Communication System – PACS) e o Sistema de Informação em Radiologia (Radiology Information System  - RIS, permitindo o registro único do paciente e, consequentemente, acesso a informações que otimizam a assistência e geram valor. “A transição para o sistema de Saúde do futuro exige que comecemos a tratar a informação como ativo estratégico. É pré-requisito do cuidado centrado no paciente, da tomada de decisão realmente transformadora e da adaptabilidade aos novos modelos de pagamento”, garante Neri. 

2- Implemente um modelo de avaliação de qualidade de assistência

A gestão hospitalar deve refletir profundamente sobre quais resultados são esperados pela população que lhe foi confiada e, para tanto, olhar para modelos internacionais de agrupamento de pacientes é um começo. Mas é também fundamental entender como os valores da instituição estão agregados ao planejamento estratégico e qual a capacidade de perceber desalinhamentos. 

Nesse ponto, um sistema de gestão hospitalar permite visualizar o hospital de forma integral, fornecendo dados para a tomada de decisão e um planejamento otimizado. Com ele é possível acompanhar indicadores de qualidade e interferir em gargalos em tempo real. 

3- Estabeleça um modelo de gestão baseado em dados

Para Neri, a governança episódica e reativa não tem mais espaço em um mercado onde a assistência à saúde está cada vez mais complexa e com menos espaço para erros na utilização dos recursos. Por outro lado, as organizações possuem hoje uma quantidade sem precedentes de informações, o que permite insights cada vez mais profundos sobre gestão e assistência. “Um melhor cuidado para o paciente e novas formas de fazê-lo podem surgir deste entendimento. Não fazê-lo deixa o hospital sujeito a concorrentes mais disruptivos”, acredita. 

4- Mude a cultura

Para que um modelo baseado em valor funcione, é preciso mudar a cultura organizacional, da assistência ao backoffice. Os modelos baseados em volume estão fortemente centrados em processos e os gestores hospitalares olham continuamente para o número de procedimentos realizados e suas taxas globais de sucesso ou insucesso. Na nova realidade, é preciso centrar o olhar no paciente. O que é preciso para fornecer assistência de qualidade para um indivíduo com essas características? Se a evolução do paciente não está de acordo com o esperado, o que posso fazer para auxiliá-lo? São essas e outras perguntas que devem estar enraizadas na cultura organizacional, não mais o número de agulhas ou gazes utilizado em cada procedimento. 

5- Utilize a capacidade analítica

Após a construção de uma forma diferente de entender o paciente, prestar assistência e fazer gestão, a gestão hospitalar precisa desenvolver a capacidade de antecipar cenários. Como muitos desses novos modelos de pagamento envolvem antecipação de recursos, é fundamental a capacidade de acompanhar em tempo real seus resultados e prever o que pode advir deles, ações fundamentais para a adaptabilidade às variações biológicas e de mercado. 

Aqui, ferramentas de inteligência de negócios, como analytics, Business Intelligence (BI) ou mesmo algoritmos de inteligência artificial são recomendadas. 

Operadoras e prestadores 

O CMIO destaca, porém, que não basta esse movimento interno da gestão hospitalar para, de fato, prover valor no contexto da Saúde Digital. As iniciativas têm sido encabeçadas por uma transformação no relacionamento entre as operadoras e os prestadores. “Devido à ainda escassez de dados em Saúde no Brasil, esse movimento é lento, concentrando-se em grandes instituições ou instâncias e sobre o controle das operadoras de Saúde. Mas ressalto que o mercado não vai esperar que o gestor hospitalar tenha informações sobre os seus pacientes para lhe impor um novo modelo. Há iniciativas de operadoras que utilizam dados de faturamento para avaliar a complexidade dos casos atendidos e propor novos modelos”, alerta. 

Nesse sentido, Neri explica que há dois movimentos principais: um em que se propõe pagamento agrupado por tipo de paciente e/ou procedimentos realizados e outro em que é acrescido ao primeiro alguns indicadores de qualidade de assistência. 

Independentemente do modelo a ser adotado e de onde parte a iniciativa, o especialista acredita que a transformação nos modelos de pagamento ocorrerá. A curto prazo, ela promete trazer mais eficiência ao setor como um todo, reduzindo desperdícios e entregando uma assistência de qualidade para os pacientes. E a médio e longo prazo, são os modelos com foco em valor que irão controlar os custos assistenciais, promovendo a sustentabilidade e viabilidade econômica das organizações ao propor o foco na manutenção da saúde, e não mais no tratamento das doenças. Sairá na frente quem tiver a capacidade de coletar, armazenar e utilizar dados de qualidade em suas estratégias de valor.

eBook: 4 passos para gerenciar indicadores e obter sucesso na Gestão Hospitalar

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