11 / Novembro / 2016

Humanização hospitalar: quais são os desafios da saúde pública?

humanização do atendimento

Nascido em 1988, o Sistema Único de Saúde (SUS) foi gradualmente se transformando em símbolo de ineficiência, atraso e mau atendimento. Seus baixos níveis de qualidade impulsionaram a criação de diversos planos governamentais de humanização, sobretudo a partir dos anos 2000. Entra aí o Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH), do Ministério da Saúde, que foi substituído pela Política Nacional de Humanização (HumanizaSUS) em 2003.

Mas qual a explicação para todos esses anos com resultados tão pouco efetivos? Quais têm sido os desafios que distanciam as instituições públicas do sucesso da humanização hospitalar? O que pode ser feitos pelos secretários de saúde para, com poucos recursos, realmente avançar nesse processo de transformação? Vamos pensar juntos nas respostas para essas perguntas? Então continue a leitura!

 

Mudança de conceitos

Humanizar a saúde pública envolve ultrapassar um atendimento médico burocrático, robotizado e em larga escala, substituindo essa rotina por uma abordagem que valorize o cidadão. É preciso enxergar o usuário do serviço em seus aspectos físicos, psíquicos e sociais, acompanhando-o para além dos muros dos hospitais. Trata-se de dar às unidades de saúde o que for necessário para adequá-la às pessoas. Nesse sentido, entram as estruturas físicas, tecnológicas, humanas e administrativas.

Vale revitalizar edifícios, trazer para dentro das instituições os melhores equipamentos disponíveis, adotar técnicas terapêuticas modernas, capacitar e motivar profissionais para trocarem a agressividade e a inércia por um atendimento interessado e de excelência, verdadeiramente humano.

Evidentemente, como estamos falando sobre um processo de metamorfose completo, sua implementação envolve verbas. E não é nenhum mistério que os estados não costumam ter tantos recursos disponíveis. E olha que essa limitação não é o único entrave nesse processo. Mais adiante, apontaremos alguns dos principais desafios que a rede pública de saúde enfrenta para oferecer um atendimento mais humanizado aos cidadãos.

 

Diretrizes do HumanizaSUS

Segundo orientações do Ministério da Saúde, a humanização hospitalar implica na compreensão e, claro, na aplicação das seguintes diretrizes:

  • Incentivar a atenção compartilhada, além de racionalizar o uso de recursos e insumos — especialmente de medicamentos;
  • Aumentar o diálogo de forma geral, promovendo a gestão participativa, colegiada e compartilhada dos cuidados;
  • Fortalecer a ideia da clínica ampliada, que prevê compromisso com o cidadão e a coletividade, estimulando diferentes práticas terapêuticas e a corresponsabilidade de todos na produção da saúde;
  • Adaptar os serviços ao universo e à cultura dos usuários, respeitando a privacidade e oferecendo o melhor acolhimento possível;
  • Implementar sistemas de comunicação que promovam o desenvolvimento, a independência e o protagonismo dos servidores e dos cidadãos.

 

Desafios da implementação

  • Má remuneração de servidores e falta de políticas remuneratórias por desempenho;
  • Ausência de programas de capacitação e ascensão na carreira — muito devido à rigidez dos estatutos dos servidores públicos;
  • Inexistência de um sistema de avaliação de performance efetivo — os existentes são meramente burocráticos, sem qualquer poder de transformação;
  • Cultura organizacional fraca, dificultando o comprometimento das equipes de saúde — fator motivado principalmente pela alta rotatividade dos cargos de alto escalão;
  • Amplitude do sistema, que cobre as dimensões continentais do país e atende às infinitas peculiaridades regionais de seus usuários — a solução passa pela descentralização, com reforço nas transferências constitucionais orçamentárias a estados e municípios, além de fortalecimento da atuação dos Tribunais de Contas, para análise e eventuais punições contra uso inadequado de recursos;
  • Baixo investimento em TI, que gera improdutividade, induz a erros e ocasiona insatisfação pelo atendimento demorado e pouco eficiente.

Em pleno século XXI, os usuários dos serviços públicos ainda perdem horas em filas para agendar consultas e exames, o que poderia ser solucionado com a simples implementação de um sistema de gestão com agendamento eletrônico. Em muitas cidades, agentes comunitários de saúde visitam famílias com pranchetas, perdendo produtividade e ainda correndo riscos de extravio de papel. Em relação a isso, é essencial reforçar que é sim possível produzir mudanças práticas na gestão sem comprometer as finanças públicas ou aumentar impostos. Um SUS mais acolhedor, ágil e confortável demanda tecnologia.

 

Ações de humanização

Apesar de serem muitos os desafios, remodelar os conceitos de saúde pública não implica necessariamente em uma revolução completa. Algumas iniciativas simples e estratégicas podem fazer uma grande diferença. Veja alguns exemplos:

  • Redução de filas e do tempo de espera dos usuários com base em um atendimento acolhedor e resolutivo, promovido por sistemas automatizados de classificação de risco;
  • Implementação do prontuário eletrônico, que reúne o histórico clínico de uma vida inteira dos cidadãos, com dados que podem ser buscados em poucos segundos, além da possibilidade de compartilhamento de informação com outros profissionais e acesso a partir de quaisquer dispositivos com acesso à Internet;
  • Priorização da atenção primária, com equipes de profissionais multiespecialistas indo a campo, dotados de sistemas de informação instalados em dispositivos móveis, a fim de acompanhar, tratar, aconselhar e coletar dados clínicos dos usuários do serviço da região — lembrando que a atenção básica não agrega valor apenas à sociedade, mas também ao estado, por promover economia de recursos decorrentes de internações evitadas;
  • Adoção de protocolos clínicos baseados em evidências presentes em bancos de dados de sistemas de gestão em saúde, no intuito de subsidiar a tomada de decisão e oferecer aos profissionais de saúde um maior acervo acadêmico para a adoção de diretrizes terapêuticas;
  • Trabalho com indicadores de desempenho (como índice de giro de leitos, tempo médio de atendimento, taxa de mortalidade e taxa de infecção hospitalar, por exemplo), lembrando que, sem controle pleno de referenciais, é simplesmente impossível encontrar e corrigir qualquer tipo de falha;
  • Promoção de uma gestão mais participativa, já que não há humanização hospitalar sem diálogo com os próprios usuários do sistema.

 

Acredite: há um SUS que dá certo. E ele pode muito bem estar na sua cidade! Como você pôde ver, algumas ações em pontos-chave de processos e abordagens podem significar o início de uma mudança profunda.

E se quer saber mais sobre humanização hospitalar na saúde pública, confira também este post! Aprenda como a promoção de campanhas de prevenção, a eficiência no uso do prontuário médico e o investimento na relação entre médicos e cidadãos pode ajudar!

 

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