23 / Julho / 2019

O que metodologias administrativas têm a ensinar à gestão hospitalar

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Aplicação de conceitos como análise Swot, 5 Forças de Porter e design thinking depende de uma estratégia empresarial sólida e de dados consolidados em sistemas digitais

 

A profissionalização da gestão hospitalar é um dos principais desafios enfrentados atualmente pelo setor de Saúde brasileiro. Por sua origem assistencial e filantrópica, com as Santas Casas como primeiros hospitais que existiram no País, muitas organizações ainda enfrentam dificuldades para implementar metodologias que já são bastante conhecidas da administração moderna, mas que também trazem resultados expressivos para os negócios no contexto da Saúde Digital

Antero Matias, coordenador do curso de graduação em gestão hospitalar e da pós em administração hospitalar da Universidade Metodista de São Paulo, afirma que a gestão em Saúde faz parte de toda a cadeia de serviços do setor, incluindo desde pequenos consultórios médicos até as grandes corporações, tanto públicas quanto suplementares. “Há exemplos excelentes nas duas vertentes, mas o que caracteriza o sucesso é a entrada de receita, ou seja, capital suficiente para permitir o atendimento da premissa básica da administração: a reposição integral dos insumos. Sem insumos, o paciente, esteja onde estiver, tem suprimido o direito de receber o resultado adequado para o tratamento de seu problema de saúde”, explica o especialista.

Matias destaca que uma gestão madura e profissional passa por uma adequada governança do capital adquirido pelo processo de atendimento, seja por meio de fontes privadas, como cobrança diretamente do paciente ou por convênios e seguros de saúde, seja por meio de recursos públicos. Portanto, a eficiência é uma das principais premissas para a gestão do hospital. 

Nesse sentido, algumas metodologias administrativas conhecidas do mercado e aplicadas nos mais diversos setores podem, também, trazer resultados importantes para a gestão hospitalar. “A aplicação dessas ferramentas e a decisão de quais delas devem ser utilizadas dependem do objetivo que se quer alcançar. Para tanto, é preciso, antes, desenvolver a estratégia organizacional, ou seja, definir onde o hospital está e aonde pretende chegar e, com base nessas premissas, construir os caminhos, com metas e objetivos, que permitirão alcançar o ponto em que se quer estar no futuro.” 

Conheça algumas das metodologias que podem ser aplicadas com sucesso na Saúde: 

  • Análise Swot: analisa a situação da empresa e também a do mercado. Auxilia hospitais em momentos de crises financeiras, como a enfrentada pelo País nos últimos anos, ocasião em que muitos trabalhadores ficam desempregados e, consequentemente, perdem seus planos de Saúde. A metodologia também auxilia hospitais no caso da ampliação da rede de atendimento por meio de fusões, prática comum no mercado atual. 
  • BCG (Boston Consulting Group): essa metodologia ganhou o nome da empresa para a qual Bruce Henderson desenvolveu o método, nos anos 1970. Ela é baseada no ciclo de vida de produtos e serviços, incluindo sua participação no mercado e o potencial de crescimento. Auxilia o hospital na tomada de decisão sobre quais setores, serviços ou unidades terão investimentos a fim de obter os melhores retornos do mercado, bem como quais serão reformulados ou descontinuados. 
  • 5 Forças de Porter: analisa a concorrência entre as empresas considerando cinco fatores – ou cinco forças competitivas – que devem ser detalhadamente avaliados para que, então, surja uma estratégia empresarial eficaz. Na administração do hospital, permite identificar as ameaças de novos entrantes e produtos, o poder de barganha de fornecedores e compradores e a rivalidade entre os concorrentes existentes. 
  • Design Thinking: trata-se de uma abordagem com foco em resolução de problemas, que auxilia principalmente na busca por soluções inovadoras. Por meio dessa metodologia, é possível catalizar soluções pontuais, assim como trazer soluções mais holísticas para o sistema de saúde como um todo. O primeiro passo para aplicá-lo é compreender as necessidades humanas e, por meio de uma abordagem interativa, criar novas soluções para essas carências. Nos serviços de Saúde, a estratégia auxilia gestores a captar e entender profundamente a experiência dos usuários. 
  • MVP: o Mínimo Produto Viável (Minimum Viable Product) tem como premissa construir a versão mais simples e enxuta de um produto ou serviço (ou parte dele), empregando o mínimo de recursos (tempo e dinheiro) possíveis para entregar a principal proposta de valor da ideia. Para a gestão hospitalar, é uma ferramenta importante na busca por soluções que aliem redução de custo e percepção de valor por parte dos pacientes.
  • Teoria das restrições: é baseada em três pressupostos. O primeiro é que uma organização possui uma meta a ser atingida. O segundo, que a instituição é mais que a soma de suas partes. E o terceiro, que seu desempenho é limitado por poucas variáveis, chamadas de restrições do sistema. Aplicada em Saúde, ela identifica onde está o elo fraco - seja de um processo, seja da organização como um todo - e ajuda o gestor a decidir como atuar para melhorá-lo, identificando em quais áreas os esforços devem ser concentrados para garantir os resultados planejados. 

Matias enfatiza que o uso dos dados obtidos por meio de sistemas de gestão hospitalar otimiza a aplicação dessas metodologias, desde que haja uma estratégia bem definida por trás. É preciso, portanto, combinar os conceitos, a tecnologia e a estratégia para obter os resultados. “Um  bom sistema de gestão é capaz de gerar grande quantidade de dados, que podem ser trabalhados por ferramentas de inteligência de negócios para gerar informações e conhecimento para a tomada de decisão.” 

O especialista enfatiza que o principal foco de qualquer estratégia empresarial no contexto da Saúdedeve ser sempre o cliente, ou seja, a experiência vivida durante o processo de atendimento de suas necessidade e dores.