08 / Julho / 2020

Pensando a Sociedade do Cuidar #1: a cidade como promotora da saúde

Pensando a Sociedade do Cuidar

Idealizadora do projeto Cidades para Pessoas, Natália Garcia explica como a organização dos espaços públicos interfere na saúde populacional, além de detalhar iniciativas que priorizam a qualidade de vida

A expansão das cidades trouxe inúmeras transformações para a vida em sociedade. Ao mesmo tempo em que aumentam as oportunidades de emprego e acesso a serviços, há impacto na qualidade de vida dos indivíduos. Não há estudos específicos que traduzem em números o alcance desse impacto, mas especialistas garantem: as pressões socioeconômicas influenciam continuamente os riscos para a saúde mental individual e coletiva, sobretudo sobre as camadas mais populares da população.

Uma saúde mental debilitada induz a condições de trabalho precárias, acentua a exclusão social e expõe o indivíduo ao risco de violência pela incapacidade mental de autodefesa - pressionando, portanto, e de diversas formas, a gestão em Saúde. Para se ter uma ideia, no Brasil, 5,8% da população sofre de depressão, taxa acima da média global (4,4%). São quase 12 milhões de brasileiros com a doença, o que coloca o país no topo do ranking no número de casos de depressão na na América Latina, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

"Cidades com soma de experiências têm muitas pessoas habituadas a sofrer, e isso cria um campo sutil em torno do local que propicia, por exemplo, a propensão desses transtornos mentais", garante Natália Garcia, jornalista idealizadora do projeto Cidades para Pessoas e convidada do Blog da MV que abre a série de reportagens “Pensando a Sociedade do Cuidar”.  O especial trará, mensalmente, entrevistas com especialistas de fora do setor de Saúde, a fim de promover um novo pensar, fruto de um trabalho conjunto entre todas as características que constroem o meio em que a pessoa está inserida, e que, consequentemente, extrapolam as paredes dos consultórios e hospitais.

Essas reportagens integram a série "Sociedade do cuidar: a extinção da Saúde como setor e a ascensão da saúde como base da vida em comunidade global", cujo objetivo é facilitar uma discussão tão conceitual quanto prática sobre a sociedade do cuidar - uma resposta urgente ao inevitável colapso do setor de Saúde, acelerado pela pandemia do coronavírus.

Neste texto de abertura, Natália, que já percorreu mais de 100 localidades do mundo todo com o projeto, fala sobre as influências que o indivíduo tem sobre a cidade e vice-versa, além de entender como essa interação conversa diretamente com bem-estar e qualidade de vida das pessoas. Leia abaixo a entrevista completa:

Blog da MV: Você viu e viveu diferentes contextos de cidades para pessoas. Quais as principais características que se repetem nos locais que você visitou?

Natália Garcia: Cidades consideradas para pessoas, em geral, têm um número maior de indivíduos que se encaixam e que trabalham com propósito, com aquilo que têm vocação para fazer - e essa é uma característica muito notável. Outra característica muito forte é que essas cidades não possuem a divisão centro-periferia tão díspar. Sempre tem uma diferença entre esses dois eixos, claro, mas não é algo tão gritante. As pessoas mais humildes da Dinamarca, por exemplo, são o equivalente à nossa classe média.

Blog da MV: Quais os pontos vitais que, na sua opinião, fazem uma cidade ser, de fato, para pessoas?

Natália - Destacaria dois pontos simples: água e ar. Cidades para pessoas possuem rios limpos, com os quais a população se relaciona e, idealmente, pode nadar. E tem ar puro, que você respira e não sente que está se intoxicando. Quando falamos de planejamento urbano, falamos de aspectos mais complexos, como mobilidade urbana, saneamento básico, índice de potencial construtivo, uso de ocupação de espaço público. E isso se desdobra em infinitas variáveis que compõem uma cidade. Mas, no fundo, a gente é bicho de beira de água doce - tanto é que toda cidade nasce na beira de rio. E nos esquecemos disso.

Algumas das cidades que têm o melhor Índice de Desenvolvimento Humano [IDH] do mundo, como Dinamarca e Holanda, são conectadas com a água. Em Amsterdã, as pessoas utilizam os canais para se locomover. Isso é vital - e não é à toa. As cidades latinas foram urbanizadas muito rapidamente e em um período após a invenção dos carros. Acredito que isso causou muitas consequências. Concretar rio tem impacto direto na saúde mental das pessoas. Existem estudos, de muitas linhagens, que dizem que as águas representam nossas emoções. Imagina o impacto disso para uma região na qual os rios estão todos represados?

Blog da MV: Como você acredita que o ato de ocupar o espaço urbano interfere na saúde de um indivíduo?

Natália - Existem coisas que acontecem no mundo inteiro: as pessoas acordam para ir ao trabalho, fazem compras no mercado para suprir a casa. Mas a diferença está no tipo de experiência que cada uma tem. Por exemplo: em São Paulo, a grande maioria das pessoas fica três, quatro horas no trânsito por dia, em média. Na Dinamarca, as pessoas passam 15 minutos pedalando para chegarem aos seus trabalhos. Em São Paulo, ao ir de carro fazer compras, perde-se tempo para encontrar uma vaga no estacionamento de um hipermercado. E o local, por sua vez, possui diversas opções de alimentos que, muitas vezes, demoraram quilômetros e quilômetros para chegar às gôndolas. Em São Francisco, cooperativas de agricultores locais oferecem comida orgânica fresca, que alimenta muito mais e é uma experiência mais rica, porque você sabe quem plantou e sabe o que está comprando.

Então, quando há a soma de experiências ruins, isso molda um sistema de hábitos internos que se acostuma com experiências ruins. Quando olhamos as pesquisas da neurociência, vemos que todos os hábitos diários ficam gravados no nosso cérebro e até por isso que, muitas vezes, fazemos tarefas automaticamente. É como se as cidades com essa soma de experiências ruins tivessem muitas pessoas habituadas a sofrer, e isso cria um campo sutil em torno do local que propicia, por exemplo, a propensão de transtornos mentais.

Acredito que esse conjunto de experiências individuais gera uma aura coletiva que, por sua vez, afeta os indivíduos. Os budistas chamam isso de coemergência, ou seja, tudo é um reflexo: as pessoas refletem as cidades e as cidades refletem as pessoas. Há locais em que isso se torna um ciclo virtuoso: a cidade melhora, as pessoas melhoram, o que melhora as cidades, e assim por diante. Mas há também aqueles locais em que o ciclo é vicioso. Acredito que o grande desafio é que não temos tecnologia ou repertório para medir esse corpo sutil. Medimos coisas palpáveis, como quilômetros de congestionamento, média de deslocamento de km/h em uma cidade. Mas essa aura, esse campo sutil, reflete algo muito mais profundo.

Blog da MV: Como poderiam se transformar as pessoas que vivem nessas cidades do ponto de vista de bem-estar e saúde?

Natália: Em primeiro lugar, são pessoas que se importam com a cidade e, por isso, tendem a cuidar melhor dela. Segundo, o engajamento "do portão para fora". Participar da vizinhança, de reuniões de bairro, dos movimentos que se engajam em prol da cidade. Em Berlim, por exemplo, tinha um antigo aeroporto [Tempelhof] que seria desativado para dar espaço a prédios. Os moradores dos arredores se uniram e foram à prefeitura reivindicar o espaço, solicitando que ali se instaurasse um parque. Hoje ciclistas pedalam na pista de pouso.

Por fim, as pessoas precisam frequentar eventos públicos: ir à festa que acontece na praça, ir à festa junina do bairro. Claro que algumas coisas são restritas ao gosto de cada um, mas esse tipo de comportamento tende a produzir uma cidade mais humana. Quando há convivência fora da "bolha", aumenta o repertório geral da população e diminuem os preconceitos. É importante esse comportamento individual de se ter abertura para circular por outras versões do que é, de fato, ser humano.

Blog da MV: Como a tecnologia pode apoiar o planejamento e estruturação de uma cidade que prioriza a qualidade de vida das pessoas?

Natália: Vou dar um exemplo que surgiu durante entrevistas que fiz com professores do programa de pós-graduação em planejamento urbano da University College of London [UCL]. É sobre Kibera, a maior favela de Nairóbi, capital do Quênia. Ela não constava no mapa oficial da cidade e, portanto, era negligenciada pela gestão. Mas Kibera não apenas existia, como muitos cidadãos moravam lá. E, para mudar isso, eles desenvolveram um sistema de mapeamento que utiliza tecnologia de satélite. Ao colocar a favela no mapa, eles obtiveram dados que mudaram a gestão da cidade inteira.

Blog da MV: Com a pandemia, estamos vivendo uma ruptura social nunca vista pela nossa geração. Esse momento permite um reolhar sobre a estrutura e a dinâmica das cidades, principalmente no que diz respeito ao impacto delas na saúde das pessoas? Se sim, quais as principais mudanças que devem emergir no mundo pós-pandemia?

Natália: Ainda é tudo muito incerto, mas o que dá para perceber é que muitas das estruturas estão se mostrando obsoletas. Vemos isso na indústria, onde donos de grandes corporações olham para seus prédios de muitos andares, e pensam 'não preciso disso tudo para ter um negócio'. Esse novo olhar pode significar uma mudança muito grande. Imagine que sem prédios, 30% dos deslocamentos que acontecem em São Paulo, por exemplo, poderiam ser evitados. Isso impacta na experiência da cidade, porque, sem trânsito, talvez ela não precisasse de tantos viadutos, que poderiam ser transformados em parques ou instalações de arte. Esse exemplo do aeroporto que virou parque em Berlim mexe diretamente com o nosso repertório do que é possível ser feito e abre caminhos para novas possibilidades do que é viver em cidade.

Blog da MV: Reconstruir as estruturas sociais e reorganizar as cidades não é um trabalho trivial nem tampouco rápido. Existem fases de transformação, que podem ser divididas em curto, médio e longo prazos? Quanto tempo duraria cada fase e quais as mudanças que cada uma delas traria?

Natália: É importante entender que nem tudo é tão linear. Não acredito que tenha tido um momento em que falaram 'agora Copenhague vai ser para as pessoas', e tampouco existiu um momento em que cortaram uma faixa e disseram 'agora chegamos lá', sabe? É um processo contínuo. Mas há alguns pontos que podemos avaliar. Paris, por exemplo, que é uma metrópole como São Paulo, tinha o Rio Sena tão ou mais poluído que o Tietê hoje. Começaram o processo de transformação do esgoto da cidade, e foram necessários 30 anos para o rio voltar a ser relativamente limpo ao ponto de voltarem a navegar. Fizeram também o projeto Paris Plages, que transforma as margens do rio em uma espécie de praia durante o verão, onde as pessoas sentam e fazem picnics.

O Rio Tâmisa, em Londres, demorou quase o mesmo tempo para ser limpo; os Canais de Copenhague demoraram 15 anos. Então, é difícil falar em prazo e fórmula. Desconheço algum case de metrópole que tenha se transformado deliberadamente. Talvez as cidades europeias tenham chegado próximo disso, mas ainda assim, a cidade nunca é uma obra pronta, ela sempre se transforma e oscila - melhora e piora. E por isso, precisa ser pensada e repensada sempre.

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