23 / Abril / 2019

Prontuário do paciente único: o que falta para alcançar esse modelo

gestão da operadora, gestão hospitalar, interoperabilidade, LGPD

Entender quais são os elementos necessários para a construção de uma assistência integrada é essencial para a implantação de uma plataforma que una todos os dados de saúde em um só lugar 

 

O prontuário do paciente único é uma tendência bastante debatida pelo setor de Saúde e, recentemente, estimulada pela Lei de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Mas há ainda alguns desafios para alcançá-lo no Brasil, entre eles a baixa interoperabilidade entre os sistemas - fundamental para o compartilhamento dos dados entre diferentes organizações de Saúde.

Fernando Arruda, coordenador do curso de medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), explica que a perspectiva do prontuário único é mais abrangente que a do prontuário eletrônico. "No prontuário único é possível reunir o histórico completo do paciente, advindo de todas as organizações pelas quais ele já passou, incluindo exames, consultas médicas e também atividades relacionadas ao cuidado e autocuidado. Esse modelo tem uma amplitude maior, já que permite o acesso de diferentes profissionais  e mesmo do próprio indivíduo aos seus dados. Por exemplo, o paciente faz tratamento com um nutricionista e os dados imputados pelo especialista podem ser acessados também pelo educador físico que assiste a essa pessoa." 

O especialista acredita que o caminho a se trilhar para a unificação do prontuário ainda é longo. Ele cita os principais desafios, de acordo com a  realidade do setor de Saúde brasileiro: 

  • Interoperabilidade: as diferentes instituições pelas quais um indivíduo passa na vida, além de tecnologias como aplicativos e sensores vestíveis, coletam uma grande quantidade de dados que devem ser imputados no prontuário único. Mas, no País, iniciativas de interoperabilidade ainda se restringem muito às paredes de determinada organização ou a operadoras com rede própria, por exemplo. Arruda explica que ter esse prontuário dentro do hospital e integrado é muito diferente de levá-lo a qualquer ambiente onde o indivíduo passe ao longo da sua trajetória de cuidado. “Entra aqui desde o lugar em que ele realiza atividades físicas até o consultório do médico, incluindo medicamentos comprados na farmácia, exames realizados em laboratórios, etc. São dados oriundos dos mais diversos pontos e que precisam conversar entre si, o que é um desafio sem a criação de padrões”, destaca. 
  • Usabilidade: o software do prontuário único do paciente precisa ser funcional tanto para a gestão da operadora quanto para a gestão hospitalar e o próprio paciente, já que todos terão acesso aos dados. As interfaces gráficas e a usabilidade dos sistemas precisam evoluir, já que os profissionais de saúde querem tratar os seus pacientes, não  aprender a utilizar sistemas complexos e pouco amigáveis. Os designers da informação, das interfaces gráficas e dos equipamentos terão um papel muito importante nesta evolução, na opinião do especialista. 
  • Segurança da informação: outro desafio é que, claramente, o número de pessoas que terão acesso a esse prontuário é maior, o que traz a preocupação em relação à segurança das informações, reforçada pela LGPD. Os dados do paciente precisam ser sigilosos em relação a elementos éticos, elementos pessoais e até íntimos que podem surgir no prontuário. 
  • Dificuldades na relação operadora-prestador: a cultura do compartilhamento de informações ainda é escassa no setor de Saúde brasileiro, mas fundamental para a existência de um único prontuário do paciente. Em Israel, por exemplo, 98% da população é coberta por quatro seguros de Saúde, que compartilham um mesmo sistema de gestão interligado para a coleta de dados, incluindo os hospitais. O modelo permitiu que, em 2018, o governo destinasse US$ 300 milhões (o equivalente a R$ 1,1 bilhão) para incentivar a utilização do big data, a fim de disponibilizar esse grande conjunto de dados anônimos a pesquisadores, empreendedores e instituições médicas. Iniciativas semelhantes no Brasil também dependem de melhorias na relação entre operadoras e os agentes prestadores dos serviços de saúde. 
  • Estratégia: além de as operadoras e prestadores estarem muito bem alinhados, será necessário criar uma estratégia própria de implementação, o que inclui revisão de processos, de sistemas, criação de cultura e engajamento dos colaboradores para reportar possíveis erros e inconsistências; 
  • Baixa horizontalidade e longitudinalidade do cuidado: no primeiro, a assistência é prestada de forma integrada entre todos os especialistas e organizações que atendem um determinado indivíduo. O segundo diz respeito ao acompanhamento contínuo do paciente ao longo da vida, acumulando histórico que inclui dados médicos, mas também números e elementos relacionados à prevenção, atividade física, alimentação. Ambos os conceitos devem permear a assistência de forma a reunir dados em um prontuário único, segundo Arruda. No Brasil, porém, o modelo é mais comum no Sistema Único de Saúde (SUS), embora com ressalvas, que na Saúde Suplementar.

Arruda comenta que, vencidos esses desafios, a existência de um prontuário único muda a relação entre os agentes da Saúde. Ele permite redimensionar o poder de atendimento da rede ao congregar, na mesma plataforma, todos os documentos emitidos eletronicamente e relacionados ao mesmo paciente, ainda que tenham sido gerados por departamentos e/ou instituições diversas. Também amplia a produtividade das equipes com a eliminação do tempo gasto por funcionários na procura por fichas, reduz a ocorrência de erros médicos por ilegibilidade e diminui custos de forma geral. 

A longo prazo, a existência de um prontuário do paciente unificado ainda possibilita a criação de políticas que incentivem o autocuidado, propondo novos modelos de negócio para as organizações e ampliando a qualidade de vida da população.