05 / Setembro / 2019

Saúde Digital: o novo papel do enfermeiro na gestão de Saúde Pública

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Dados coletados por soluções como o prontuário do SUS e sistemas de gestão otimizam a atuação do profissional na estratégia de Saúde da Família, com alcance individual e populacional

 

O enfermeiro está presente na maioria das ações desenvolvidas pela gestão da Saúde Pública no contexto da atenção básica, especialmente por meio das equipes do Programa Saúde da Família (PSF). Com a evolução da Saúde Digital, o papel desse profissional passa por transformações, requerendo atividades cada vez mais diversificadas e que ganham apoio com o uso de dados do prontuário eletrônico do SUS e de sistemas de gestão, entre outras tecnologias. 

De acordo com o Ministério da Saúde, no âmbito da estratégia do PSF, cabe ao enfermeiro atividades como cuidados diretos em urgências e emergências, realização de consulta de enfermagem, solicitação de exames complementares, prescrição ou transcrição de medicações (conforme protocolos e disposições legais da profissão), além de tarefas de gerenciamento e coordenação em Unidades de Saúde da Família (USF), associadas a políticas de Saúde coletiva e populacional. 

Antero Paulo dos Santos Matias, coordenador da graduação em gestão hospitalar e da pós em administração hospitalar da Universidade Metodista de São Paulo, destaca que a tecnologia traz agilidade e assertividade às atividades desenvolvidas por profissionais de enfermagem, possibilitando uma assistência integral ao cidadão e à população como um todo. Um exemplo é o uso do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), que tem como principal objetivo digitalizar as fichas manuais, prescrições médicas ilegíveis e relatórios médicos fragmentados. A organização pode ainda optar pelo Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP), que possui mais funcionalidades que o PEC e permite o acesso aos dados até mesmo fora da instituição, quando armazenados por computação em nuvem. Dessa forma, as informações de cada paciente, como exames, medicações e outros procedimentos realizados, ficam registradas no mesmo lugar, permitindo um rígido controle da assistência, incluindo mecanismos como alertas que indicam se o remédio correto está sendo aplicado no paciente certo e na dose prescrita. 

As potencialidades da ferramenta para a atuação do enfermeiro são ampliadas quando há um sistema de checagem beira-leito. Ele funciona da seguinte forma: após o medicamento ser preparado, a administração é acompanhada e checada via código de barras e sistema informatizado atrelado à prescrição eletrônica, de forma a promover a redução de erros humanos e consequentemente, garantir a segurança do paciente e a eficiência do tratamento.

Além do prontuário eletrônico, um sistema de gestão de Saúde Pública também é aliado da atuação do enfermeiro, permitindo o controle e o monitoramento de referenciais de desempenho e a mensuração dos resultados. A ferramenta identifica, por exemplo, o custo dos medicamentos utilizados, as flutuações sazonais das doenças, quem está sobrecarregado ou ocioso, a taxa de retorno após alta, entre outras variáveis que auxiliam o departamento de enfermagem a entender o caminho traçado pela instituição e os possíveis gargalos de eficiência. 

Dados qualificados

Mas, para garantir esses resultados, a gestão da Saúde Pública deve prestar atenção à qualidade do dado. “Quando coletados e armazenados de maneira correta, os dados geram informações que, após tratadas, vão se transformar em conhecimento para tomada de decisão. Esse conhecimento sobre uma determinada população atendida em uma unidade de Saúde, por exemplo, pode ser utilizado pela gestão da Saúde Pública para a proposição de campanhas de vacinação, controle sanitário e combate a endemias”, explica o especialista. 

Mas trabalhar com dados de qualidade ainda é um dos principais desafios da gestão da Saúde Pública no Brasil. A maioria dos mais de 308 mil estabelecimentos brasileiros não possui uma forma estruturada de coletar as informações. Muitos ainda funcionam com prontuários de papel ou, quando têm informações digitalizadas, são sistemas que não conversam entre si, não se integram e, por isso, não alcançam a qualidade necessária para que os dados se transformem em informações estratégicas. É necessário, portanto, avançar nesses aspectos para que o enfermeiro possa, de fato, assumir atividades de destaque no contexto da saúde populacional. 

Matias destaca, inclusive, que o profissional pode assumir papel decisivo nesse aspecto, desenvolvendo habilidades técnicas relacionadas ao uso da TI e atuando como um incentivador da Saúde Digital com a gestão do SUS. “Esse profissional reúne e conecta as ações dos médicos com os demais agentes de Saúde da Atenção Básica. Portanto, quando sabe como fazer uso de sistemas de gestão e prontuários eletrônicos, pode propor ações, principalmente no que tange à prevenção e à promoção, gerando mais precisão nas estratégias e, consequentemente, na obtenção de resultados favoráveis.” 

A gestão da Saúde Pública do município de Florianópolis é um exemplo do uso da tecnologia para apoiar atividades desenvolvidas por enfermeiros na atenção básica. A capital do Estado de Santa Catarina tem a maior cobertura de Saúde da Família do País e está capacitando a enfermagem para fazer o acompanhamento e monitoramento direto de cidadãos com doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, pré-natal de baixo risco, testagem e tratamento de pessoas com HIV e sífilis, entre outras doenças, além de exames preventivos de câncer de colo uterino e de mama. Desde 2013, quando os enfermeiros passaram a ter uma atuação mais efetiva, com base em protocolos clínicos e dados de prontuário eletrônico que ampliam a segurança do paciente, houve um aumento de 30% do acesso da população aos serviços de Saúde. 

Essa também é a realidade de países como Reino Unido e Canadá, além de ser uma recomendação do Banco Mundial pelo seu resultado efetivo na ampliação do acesso e eficiência dos serviços de atenção básica à Saúde.

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